Como o Brasil superou a crise
Julio Gomes de Almeida
De São Paulo (SP)
O declínio de 0,2% do PIB brasileiro no ano passado foi indicativo da força de uma economia que a despeito de ter acionado poucos mecanismos anticíclicos relativamente a outros países, evitou uma recessão mais profunda. Na base do êxito do Brasil em lidar com a maior crise desde a grande depressão de 1929 estão a remoção da vulnerabilidade externa mediante a acumulação de reservas que às vésperas da crise chegavam a quase US$ 200 bilhões, a maior solidez das contas públicas e do endividamento do setor público e a contaminação zero das instituições financeiras do país com os ativos "tóxicos" que notabilizaram o boom financeiro internacional e que sofreriam forte desvalorização com a crise
Foi também relevante a aplicação de políticas anticíclicas pelo poder público. Mas, no que diz respeito ao esforço fiscal que tanta importância teve no enfrentamento da crise pelos países de economia desenvolvida e destacados países em desenvolvimento, este limitou-se no caso brasileiro talvez, a 1% do PIB, por renúncia de impostos do governo federal na compra de bens duráveis como automóveis, materiais de construção, linha branca e móveis, e atrasos de recebimentos que fizeram do governo um financiador de última instância para empresas com dificuldades de acesso ao crédito.
Por outro lado, a redução de juros entrou em cena muito tarde, tendo ocorrido apenas em janeiro de 2009 a primeira redução da taxa básica, enquanto o agravamento da crise externa teve lugar, de forma dramática, em setembro de 2008. A taxa Selic cairia de 13,75% ao ano para 8,75% ao ano entre janeiro e julho de 2009. Como há um intervalo de tempo entre a queda da taxa básica de juros e seus efeitos na atividade real, provavelmente a política de juros acelerou a recuperação da economia quando esta já estava em curso, vale dizer, em meados de 2009, sem ter sido em si um antídoto à crise ou um mecanismo promotor da reativação.
O governo lançaria mão de medidas de aumento da liquidez na economia, com a liberação entre fins de setembro de 2008 e início de 2009 de R$ 100 bilhões que antes os bancos recolhiam compulsoriamente ao Banco Central. Juntamente com uma ação deliberada de política bancária comandada pelo comando econômico do país para evitar uma crise nos bancos de menor porte, na qual instituições públicas adquiriram participações e compraram carteiras de crédito de bancos em dificuldades, a medida de aumento de liquidez foi relevante, pois abortou a possibilidade de corrida bancária ou de dúvidas sobre a situação de liquidez dos bancos brasileiros.
Estes vinham promovendo uma enorme evolução do crédito para pessoas físicas e, sobretudo, para pessoas jurídicas, tendo por base em ambos os casos o alargamento dos prazos dos financiamentos, sem contrapartida de ampliação de prazos do lado da captação de recursos. Para se ter ideia do boom de crédito que se desenvolvia na economia no momento anterior à crise internacional, basta observar que em setembro de 2008 o crédito crescia 45% e 17,9%, respectivamente, para pessoas jurídicas e pessoas físicas, na comparação com o mesmo mês do ano anterior.
Dada a onda de dúvidas e incertezas que se instaurou quando explodiu a crise internacional, esse intenso crescimento dos financiamentos e o descasamento de prazos que o acompanhava, transformou-se em fator de elevação do risco dos bancos mais alavancados e expostos a captações no interbancário e junto a fundos de investimentos e a grandes empresas. A incerteza se agravaria à medida que iam se tornando públicos os elevados montantes de empréstimos a empresas concedidos em operações casadas com aplicações em mercados futuros de câmbio nas quais as empresas assumiram riscos cambiais. Com a desvalorização do Real foram gerados vultosos prejuízos em muitas empresas brasileiras, o que em setores como o de celulose, alimentos processados e açúcar e álcool levou a quebras de empresas nacionais de porte. No contexto internacional adverso que afugentava potenciais compradores estrangeiros e, dado um apoio financeiro redobrado concedido pela agência brasileira de financiamento, o BNDES, os grandes grupos nacionais foram os principais absorvedores das empresas em crise.
A propósito, o apoio financeiro do BNDES também foi relevante para viabilizar a compra de empresas no exterior por parte de empresas nacionais e por financiar absorções ou associações entre empresas nacionais. Com isso, em vários segmentos da atividade econômica emergiram da crise grupos nacionais com muito maior porte e poderio financeiro. Essa consequência da crise poderá vir a condicionar positivamente em um futuro próximo a inserção de empresas brasileiras no exterior e sua capacidade inovadora, dois traços que as empresas nacionais, sabidamente, deixam a desejar.
As medidas na área de liquidez e de política bancária, portanto, evitaram uma crise de liquidez que, se desencadeada, restringiria de forma aguda o crédito e tornaria inevitável uma recessão de grandes proporções na economia. Um instrumento importante para a recuperação da capacidade de concessão de novos financiamentos por parte dos bancos de menor porte foi a garantia concedida pelo Fundo Garantidor de Crédito aos depósitos a prazo emitidos por esses bancos.
A medida anticíclica mais destacada do nosso ponto de vista não veio nem da área fiscal, nem da política monetária ou de liquidez, a despeito da inegável relevância de cada uma delas. Veio, sim, da orientação que o governo transmitiu aos seus bancos (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES) para que ampliassem seus financiamentos. No início da crise o crédito dos bancos públicos representava cerca de 35% do crédito total, percentual que subiria a 41% (percentual de fevereiro de 2010). No contexto em que os bancos privados contraíam os seus financiamentos, foi esse espaço ocupado pelos bancos públicos o determinante por não ter havido na economia uma crise de crédito entendida esta não somente como a contração do volume de financiamentos concedidos, mas também como uma onda de falências de empresas e de liquidação de ativos. O crédito se retraiu de fato, o que trouxe consequências negativas para a atividade econômica, mas logo pôde ser recomposto, como veremos em seguida.
Nos casos do Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, a orientação do governo no sentido de que essas instituições ampliassem seus financiamentos encontrava correspondência em um grande crescimento da sua captação de recursos, dada a maior preferência do público em manter, no momento de crise, seus saldos de recursos junto aos bancos oficiais. No caso do BNDES, suas operações de crédito já vinham aumentando de forma acelerada antes da crise em função do boom de investimentos em grandes projetos que após uma ausência de mais de três décadas voltou a se apresentar na economia brasileira. Nesse caso, a orientação do governo que por todos os ângulos foi acertada, foi não interromper o financiamento das inversões que de outra forma não seriam realizadas, dada a retração do crédito externo e doméstico e o refluxo que se observava no mercado brasileiro de capitais. Além disso, como já foi visto, o BNDES financiou oportunidades abertas pela crise para aquisições e fusões sob o comando de empresas nacionais, no país e no exterior.
Em suma, propriamente relacionados à defesa do nível de atividade durante a crise e indutores da recuperação após a recessão do ultimo trimestre de 2008 e primeiro trimestre de 2009, podem ser relacionados os instrumentos monetário o qual, todavia, veio com relativo atraso; o instrumento fiscal que, no entanto, pode ser considerado tímido se comparado aos esforços empreendidos em outros países; o instrumento da liquidez, que mais propriamente defendeu o sistema bancário contra o risco de uma crise; e o crédito dos bancos públicos, este sim, o mais ativo promotor da defesa da economia contra a crise e da restauração das condições de volta do crescimento.
Ao lado desses fatores, foi decisiva a manutenção pelo governo das políticas que já estavam em curso, o que teve por consequência a preservação, durante a crise, de certo de nível de gasto e de crédito na economia. Assim, o governo não abriu mão dos vultosos investimentos programados pela Petrobrás e dos demais programas do PAC e procurou ampliar esses investimentos. Criou também dois outros programas relevantes. O primeiro, na área de habitação ("Minha casa, minha vida"), terá maior impacto a partir de 2010; o segundo, transitório (com validade até 31/12/2009, depois prorrogado para 30/6/2010), foi adotado em meados de 2009 na área do investimento. O "Programa de sustentação do investimento", PSI, pode ser concebido como um capítulo da exitosa política de crédito adotada durante a crise e teve grande efeito sobre o investimento corrente, notadamente no investimento mais "leve" (voltado à aquisição de máquinas e equipamentos). Consistiu na redução para 4,5% ao ano da taxa de juros dos financiamentos do BNDES para a compra de bens de capital, praticamente tornando nula a taxa real de juros dos financiamentos de parcela considerável do investimento no país.
Não houve retrocesso em outras decisões do governo como ampliar e reajustar as transferências para famílias pobres (o programa "Bolsa Família") e na concessão de aumento do salário mínimo. O governo também não restringiu o direcionamento do crédito, como por exemplo, no sistema que vincula a captação da caderneta de poupança que teve significativo aumento no ano da crise com o financiamento de moradias. Com isso, foi possível amortecer a queda no setor de construção habitacional. Não houve recuos ainda em programas de elevação dos salários de servidores públicos, mas nesse caso um adiamento ou reprogramação não teria ônus para o crescimento econômico. Com essas medidas, às quais se somariam outras como a ampliação do seguro desemprego, o governo preservou o seu já elevado nível de gasto público sobre o PIB, aumentou o investimento público e ampliou o impacto do gasto por ele induzido na economia.
Isso teve consequência relevante porque evitou que a crise se propagasse para toda a economia brasileira. A sustentação do gasto público "blindou" o setor serviços da economia, responsável por 60% do PIB e grande empregador. Este setor, salvo em segmentos de maior relação com a dinâmica agroindustrial, a exemplo de transportes, praticamente não foi afetado pela crise. Isso significa dizer que os efeitos desta no Brasil, embora graves, ficaram restritos aos setores da indústria e da agropecuária. Nesses casos era inevitável um grande impacto inicial da crise internacional, dada a sua natureza - tratou-se de uma ampla e gravíssima crise de confiança - e as mudanças por ela repentinamente provocadas nas decisões de longo prazo, na disponibilidade do crédito e no comércio exterior. Isso afetaria fortemente a agropecuária (pelo encolhimento do crédito e do comércio mundial) e, sobretudo, a indústria (pelos mesmos fatores, acrescidos da retração do investimento em decorrência do colapso das decisões de longo prazo). Por essas razões, o primeiro desses setores declinaria 5,2% no ano da crise, a indústria, 5,5%, enquanto o setor de serviços mantinha crescimento de 2,6%.
Por outro lado, o gasto público, na medida em que preservou o emprego no setor de serviços, protegeu a atividade em segmentos produtores de alimentos e de bens industriais básicos para a população. Isso não impediu, no entanto, uma onda de demissões com dispensas líquidas de trabalhadores formais acumuladas entre outubro de 2008 a março de 2009 de 692 mil pessoas. Mas, apesar disso, deve ser notado que as demissões ocorreram na indústria (493 mil) e agropecuária (227 mil), mas não no comércio (que no mesmo período contratou 47 mil pessoas) e em serviços (67 mil). Deve ser sublinhado ainda que após esse período todos os setores ampliaram as contratações.
Por não prosperar o desemprego, não aumentou a inadimplência no crédito familiar. Isso, aliado à disposição dos bancos oficiais de deterem fatia maior no crédito pessoal e ao consumidor o que suscitou uma reação competitiva da parte do segmento privado fez com que já no segundo trimestre de 2009 voltasse a crescer o crédito para as pessoas físicas. No segundo semestre ocorreria um início de retomada do crédito para as empresas.
Em suma, a manutenção e o aumento do nível do investimento e do gasto público e a ampliação do crédito em plena crise, foram os determinantes do êxito brasileiro em responder à crise internacional e superá-la com rapidez, minimizando a retração do PIB em 2009. A ampliação do crédito pode ser considerada fator ativo mais relevante para a retomada do crescimento da economia a partir do segundo trimestre do ano passado. Se o Brasil tivesse se aproximado mais de outros países em termos de arrojo na execução de políticas fiscais e de juros, como no caso da China e dos países desenvolvidos, talvez sua economia nem tivesse entrado em recessão e teria acumulado crescimento no ano crítico de 2009.
Julio Gomes de Almeida é professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.
Crise afetará mais o Brasil em 2009
O país resistiu bem a essa primeira quebra, graças à economia mundial favorável nos últimos anos, à desindexação de parte da dívida e à exploração dos trabalhadores brasileiros: estrutura latifundiária, baixos salários, diversificação de exportações, mercado interno, investimentos em infra-estrutura e controle da inflação com privatizações e altas taxas de juros. Mas o pior está por vir.
Com a generalização da crise, o Brasil sofreria as conseqüências de seu modelo de desenvolvimento capitalista associado à burguesia financeira internacional: subimperialista regionalmente e submisso ao imperialismo estadunidense e europeu. Toda a economia real do país está vinculada a transnacionais e ao sistema financeiro internacional direta ou indiretamente, seja através de filiais nacionais, seja pela garantia da acumulação de capital com abertura do mesmo nas bolsas ou contratação de crédito. Com o aprofundamento da crise, o Brasil seria peça-chave na geoestratégia do imperialismo, que necessitaria aumentar sua dominação sobre a América Latina em busca de mais mercados, matéria-prima e força-de-trabalho baratas.
Até agora, apenas a bolha do setor hipotecário e imobiliário dos EUA de fato estourou. Tenta-se evitar a generalização da crise para outros setores da economia e outras esferas da formação social através da estatização de parte do sistema financeiro e da liberação de crédito para as empresas em dificuldades, socializando as perdas à custa do bolso dos trabalhadores. É consenso, porém, a desaceleração da economia mundial em 2009. Em novembro, o PIB dos EUA caiu 0,6%, acumulando queda de 5,5% da produção industrial no ano e, segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), os países ricos perderão 8 milhões de empregos.
Desdobramentos da crise
Depois dos “pacotes anticrise” estadunidense, inglês, europeu, chinês e até argentino, o governo brasileiro tem afirmado que “Já temos um pacote, que é o Pacote de Aceleração do Crescimento (PAC)”, formulado essencialmente como política fiscal de ação anticíclica. No entanto, para além do PAC, o governo já tomou muitas medidas para conter a crise: a venda de US$50 bilhões das divisas nacionais para frear a valorização do dólar, o controle da taxa de juros, o acesso de empresas nacionais a divisas depositadas no exterior, o corte do IPI até março, o aumento do seguro-desemprego, a facilitação do crédito para moradia e bens de consumo duráveis, como carros e eletrodomésticos, a facilitação de redesconto no Banco Central para os bancos comerciais, a liberação de compulsórios e até a compra de um banco estadual pelo Banco do Brasil.
De presidente do país Lula tem se rebaixado a escuso mediador de conflitos em nome da burguesia brasileira e da oligarquia financeira internacional a ela associada. Após recente reunião com empresários, afirmou: “Foi a melhor reunião de que já participei. (...) Discutimos para que nenhum empresário dispense trabalhador, porque é importante manter o nível de emprego. Eu assumi o compromisso de conversar com os dirigentes sindicais para saber da possibilidade de estabelecermos acordos em alguns setores que foram mais afetados”. Recentemente, a Vale pediu ao governo a flexibilização da CLT, para “evitar” a demissão de 1.300 funcionários.
Cerca de 20% a 30% do crédito que entrava no país o fazia por empresas que contraem empréstimos no exterior. Os setores mais afetados pela crise serão, portanto: a) aqueles que mais dependem de crédito externo e b) aqueles com matriz nos EUA e Europa. Ou seja, os de exportação, construção civil e o de automóveis, além do próprio sistema financeiro.
Dentre os desdobramentos da crise no Brasil, certamente haverá grande aumento no desemprego. A construção civil, por exemplo, tem baixa composição orgânica de capital, e representa milhares de empregos. No caso da indústria automobilística, juntam-se os dois elementos: há uma superprodução nesse setor e o acesso ao crédito é essencial para a realização dos produtos através da venda, constituindo nossa pequena “bolha subprime” com descasamento de prazos no financiamento de veículos; além disso, as matrizes da indústria já sofrem com a crise, que deve repercutir sobre as filiais. Nos EUA, Ford, Chrysler e GM pediram ao governo US$ 34 bilhões. Só a GM já fechou 3 fábricas, demitindo 2 mil trabalhadores. Na Alemanha, a Volkswagen paralisará a produção por três semanas, enquanto a Daimler a reduzirá. A Fiat fechou suas fábricas da Itália por quase 1 mês. No Brasil, a desoneração do IPI aumentou as vendas, mas ainda não será suficiente. No dia 15, a alemã MAN Aktiengesellschaft anunciou a compra da Volkswagen Caminhões e Ônibus por cerca de R$2,83 bilhões.
Já a exportação, principal responsável pelo superávit em transações correntes, se vê dificultada pela queda da renda mundial. No entanto, a desvalorização do dólar pode compensar a queda dos preços de algumas commodities de primeira necessidade (soja, milho, carne), causando o encarecimento das mesmas no mercado nacional e o encarecimento generalizado dos alimentos através da substituição do plantio diversificado e do fim da já pequena agricultura familiar. A queda nos preços do petróleo, que barateia o transporte, poderá não ser suficiente para anular essa tendência, além de prejudicar a Petrobras e de nublar os planos do governo Lula para a custosa exploração do pré-sal.
Além dos alimentos, haverá um aumento no custo de vida da classe operária em geral, com dificuldades de financiamento da casa própria e dificuldades de obtenção de crediário, além do já mencionado aumento do desemprego e do corte do orçamento do Estado para seguridade social, saúde e educação, buscando o “ajuste fiscal” de suas contas. No setor bancário, as demissões já começaram – produto da crise financeira e das fusões, com sobreposição de redes e de cargos internos. O acesso ao crédito, pessoal e para a indústria, será menor. A crise trará de volta, ainda, a questão do nível de centralismo e planificação do Estado, colocando a luta pela estatização e contra as privatizações na ordem do dia, em contraposição aos “pacotes .de ajuda” do governo às empresas, ao estilo Proer.
É verdade que a burguesia nacional poderia inclusive beneficiar-se dela em detrimento dos trabalhadores, se fizesse essa opção política. Mas o que o Brasil verá é a concentração e centralização de capital, sentida pelo povo no aumento da composição orgânica de capital com a quebra de pequenas empresas e desemprego massivo, repressão e violência generalizadas. A massa de lucro dos grandes monopólios que sobreviverem aumentará, e quem pagará o pato é o trabalhador.
Estão dadas as condições objetivas, e o pior está por vir. É hora de aproveitar a crise para avançar na construção do socialismo.
Marina Gouvea
ode até parecer um contra-senso, mas os analistas mantêm a aposta num crescimento mais forte do Produto Interno Bruto (PIB) do País em 2007, apesar das turbulências que tomam conta do mercado financeiro mundial. Para eles, um possível impacto da atual volatilidade só afetaria o desempenho da economia brasileira a partir do próximo ano, caso a crise perdure por um período mais longo e deixe de ter um caráter apenas financeiro e passe a atingir o nível de atividade de países como os Estados Unidos e os da Europa.
'O crescimento deste ano já está dado', diz o economista Sergio Vale, da consultoria MB Associados. 'As decisões de investir, produzir, importar e oferecer serviços já estão relativamente consolidadas e não têm como mudar muito esse cenário agora, a não ser que ocorresse um colapso do sistema bancário internacional.'
Para Vale, o impacto da atual turbulência dos mercados mundiais sobre a atividade econômica brasileira este ano será bastante reduzido. Tanto que a MB revisou sua previsão para o PIB de 2007 de 4,5% para 4,9%, com base nos últimos números da indústria.
Na opinião de Celso Toledo, economista-chefe da MCM Consultores Associados, a probabilidade da crise financeira virar uma recessão mundial é muito reduzida. 'Os efeitos para o Brasil tendem a ser pequenos, pois estamos crescendo a uma taxa muito robusta para nossos padrões, que pode até diminuir um pouquinho perto do que poderia ser.' A MCM está revisando sua estimativa para o PIB de 4,3% para um número entre 4,5% a 5%.
O vendaval financeiro não mexeu na confiança do governo brasileiro de que o País está preparado para enfrentar as turbulências, inclusive se a situação piorar. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, garantiu que o Brasil está em situação confortável para passar por mais essa turbulência sem maiores problemas. E o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, destacou a 'absoluta normalidade' do mercado financeiro nacional, a maior resistência do País a choques e, quase que de passagem, mencionava que o BC estava 'monitorando' a situação. Na quinta e na sexta-feira, o BC brasileiro retirou dinheiro de circulação do mercado, por excesso de liquidez, situação oposta à enfrentada por seus pares internacionais.
Entenda a crise econômica que estamos vivendo
Não sou economista, mas estou há algum tempo lendo e prestando atenção no que está acontecendo com a economia por aí. Existem inúmeros artigos que explicam esses acontecimentos, mas poucos falam de uma maneira clara e simples para que todos nós, meros mortais, entendamos o que de fato está ocorrendo. Quero hoje tentar explicar da maneira mais simples possível quais os fatos que fizeram todo esse alvoroço na economia mundial.
Crise imobiliária
Tudo começou com a crise imobiliária dos EUA. Essa crise começou por lá porque os bancos estavam oferecendo uma quantidade muito grande de crédito imobiliário, o que acabou incentivando por demais o setor. O problema é que os bancos não faziam um estudo decente sobre as possibilidades financeiras dos clientes, achando que bastaria cobrar juros mais altos para se protegerem da inadimplência e aumentar os lucros. Só que o tiro saiu pela culatra…
Como existia muito crédito na praça, os americanos foram às compras felizes e contentes porque estavam adquirindo a sua casa própria. Só que com isso o preço dos imóveis subiu muito e chegou ao ponto que alguns que originalmente valiam US$80 mil estavam sendo vendidos por US$200 mil.
O que aconteceu? Desgostosos por pagar preços exorbitantes nos imóveis e nos juros da sua hipoteca, os americanos começaram a deixar de pagar os bancos. Mas isso ainda não é o maior problema, o problema é que essa situação não aconteceu apenas em alguns casos isolados, aconteceu em massa.
“Mas os americanos pararam de pagar as suas hipotecas só por causa disso?”
Não. Os bancos não ofereciam crédito apenas para compra de imóveis. O crédito é oferecido para tudo, incentivando o consumo em diversas áreas. O problema é que isso aumenta muito o endividamento e as pessoas acabam por muitas vezes não conseguir pagar suas dívidas.
Com a crise já instaurada mas sendo negada por todos, começou a existir menos crédito na praça e o preço dos imóveis diminuiu por haver menos procura por eles. Nesse momento, muitos americanos viram seus imóveis desvalorizarem muito chegando ao cúmulo de eles deverem um valor absurdamente maior do que o valor que o imóvel realmente valia naquele momento. Ou seja, pessoas que compraram um imóvel por US$200 mil viram seu preço despencar para menos de US$100 mil. Assim, muitas pessoas acharam que não valia a pena continuarem pagando a hipoteca, mesmo que tivessem seus imóveis executados (retomados pelos credores, os bancos) judicialmente.
Como a inadimplência estava crescendo assustadoramente, os bancos começaram a sentir falta de dinheiro novo, dinheiro esse com que já contavam para várias outras operações financeiras. Esses empréstimos que os bancos fizeram são considerados por muitos um tipo dos chamados “ativos podres”.
O que é um ativo? E um passivo?
Existem inúmeras definições para esses termos, mas falando simplesmente, um ativo é alguma coisa que dá dinheiro para uma determinada pessoa enquanto o passivo o tira.
Por exemplo, se você tem uma casa e a aluga por um preço maior do que o que você gasta com impostos e manutenção, essa casa é um ativo. Quando você tem uma casa e não a aluga ou a aluga por um preço mais baixo que o que você gasta com impostos e manutenção, você tem um passivo.
Por isso que os bons economistas não consideram (na maioria das situações) a casa própria um ativo, tal como muitos gerentes de banco dizem. Fique esperto!
O monstro chamado recessão
Ouvimos muitas pessoas falando em recessão. Você sabe o que é isso?
A recessão acontece quando há uma grande diminuição no crescimento econômico de uma determinada região ou país. Os resultados são devastadores e incluem a diminuição do salário dos empregados, redução da produção e da oferta de serviços, desemprego etc.
“E agora? Estamos em recessão?”
O governo diz que não, mas alguns economistas afirmam que muitos países já estão em recessão. Tecnicamente falando, a recessão acontece quando o PIB de um país diminui por dois meses consecutivos e o Brasil ainda não se encaixa nesse quadro.
@Atualização em 05/02/2009
A leitora Katia Campos deixou um comentário nos fazendo a pergunta abaixo e achei pertinente completar o artigo com mais essa informação.
E como a crise afeta o Brasil?
A economia mundial está vivendo um momento único na história. Estamos vivendo uma crise causada por outras crises. É é nisso que os governantes e grandes economistas estão trabalhando: uma forma de proteger outros países quando uma crise acontece em algum ponto isolado.
Mas como essa fórmula mágica ainda não apareceu, enfrentamos a crise também aqui no Brasil. Vários são os fatores que colaboram para isso. Veja alguns abaixo:
1. Ativos podres
Várias empresas brasileiras possuiam ativos estrangeiros que perderam muito do seu valor de mercado. Assim, estão mais cautelosos sobre os seus investimentos externos.
2. Crise de crédito
Como essas empresas não estão fazendo bons investimentos externos, buscam fazer melhores investimentos aqui no Brasil. Isso significa que elas estão aumentando os juros do crédito para assegurar bons rendimentos nos seus ativos e compensar a falta de rendimento e o prejuízo dos ativos externos.
3. Recessão
Com os juros do crédito mais altos, os brasileiros vão diminuir o consumo de bens duráveis e muitas vezes, até mesmo de bens não duráveis. Isso pode vir a causar uma recessão em um futuro próximo.
4. Crise nas montadoras
Como até meados de 2008, as montadoras estavam tendo um volume recorde de vendas, sua produção aumentava cada dia mais até que chegou a crise. Com o crédito a juros mais altos, a quantidade de veículos sendo em oferta diminuiu consideravelmente.
E por aí vai… É como os especialistas sempre dizem: a crise é uma bola de neve.
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